Enilton Rocha, 25 out. 2019.

Eis que de retorno do 25º CIAED, Poços de Caldas Mg, depois de muita rampa, escadas e sobe e desce, assistindo palestras, compartilhando experiências em mesas redondas e debatendo sobre o novo marco da pesquisa stricto sensu no país, mestrado e doutorado a distância, volto para casa com a sensação de haver contribuído para algumas reflexões e interrogações, mas trazendo na bagagem um vazio que incomoda: por que insistimos no comum em plena era da “internet das coisas (IOT)” ou internet das pessoas? Era das “tecnologias exponenciais”?

O que nos faz acreditar que a acomodação acadêmica ainda pode estabelecer parâmetros para a inovação, a qualidade e a criação?

O cérebro e o mapa das conexões

Logo no segundo dia, após a abertura, um excelente diálogo com a Dra. Tiepo, Carla, problematizando sobre a sua prática no trato das questões da neurociência na educação. Trouxe para aquela grande plateia o desconhecido “Mapa das Conexões”, descortinando a importância do saber diante do impacto da neurociência na aprendizagem do adulto e as influências do cérebro na aprendizagem.

A fala da autoridade na relação neurociência e educação despertou-me a revisão sobre conceitos e conhecimentos no complicado processo cérebro-aprendizagem, quando ela categorizou: “o cérebro aprende em diversas situações de atenção/concentração”.

Demonstrou que o vício, a rotina ou a facilidade das videoaulas, por exemplo, pode comprometer o design pedagógico da aula, do projeto de curso e consequentemente de seus resultados formativos. Discorreu sobre a importância da atenção e da concentração, que no adulto é ainda mais volátil, caso os recursos tecnológicos de mediação na aprendizagem não respeitem a influência das reações do cérebro em situações de confronto em determinados contextos, momentos e espaços de aprendizagem mediada.

Chamou a atenção para o momento da complexidade imposta aos educadores pelo viés das tecnologias exponenciais. Destacou a importância do estudo continuado e da exploração contextualizada dessas tecnologias, de modo a nos aproximarmos das realidades e conflitos do estudante século XXI.

Mostrou com clareza a riqueza do hibridismo cuja configuração e design educacional utilizam a mistura dosada de tecnologias exponenciais de domínio público, onde o pensamento local, encaixotado, monetizado dá lugar ao global, compartilhado, autônomo-criativo e imaginário.

Fez-nos pensar na complexidade, mas ao mesmo tempo no potencial de utilização que essas tecnologias podem oferecer no dia a dia do professor, do aluno e das IES no estudo de problemas complexos do cotidiano da saúde ao meio ambiente, das engenharias ao mundo dos negócios, da educação ao mundo das humanidades etc.

Embora essas tecnologias estejam em nosso dia a dia, há um certo desconhecimento ou resistência quanto ao seu potencial pedagógico e andragógico e isso tem nos direcionado ao vicio dos tradicionais ambientes virtuais de aprendizagem, das aulas gravadas, dos conteúdos instrucionais dentre outros artefatos educacionais em vigor.

Outra questão da dialética durante essa palestra diz respeito à preparação do professor para o uso das “tecnologias exponenciais” na educação. Nesse sentido, a palestrante destaca que não adianta investir em tecnologias emergentes ou em tecnologias tradicionais, se a maioria dos professores no Brasil ainda não consegue dar aulas mesmo sem elas… Segundo ela, muitas vezes o cérebro não dá atenção devida ao professor porque ele não corresponde às expectativas e anseios dos estudantes…Ele não consegue inspirar, emocionar, convencer, sensibilizar e isso não tem relação direta ou indireta com o uso de tecnologias mediadoras da aprendizagem.

Nesse contexto, por onde vamos ou devemos caminhar? O que está em confronto: o professor ruim ou a EaD e a proficiência tecnológica necessária para falar a língua dos estudantes?

Acomodação acadêmica

Analisando a programação e os painéis nos corredores do 25º CIAED, uma curiosidade: a acomodação acadêmica ainda presente na maioria das agendas previstas para os dias do congresso. Em alguns momentos assisti algumas palestras, participei de algumas mesas redondas e tive a impressão de que essa esteira rolante dava o tom nas falas, debates, exemplos e apresentações de resultados de pesquisas na pós stricto sensu.

Muito debate no entorno do modelo atual de educação a distância praticado no país, mas pouca relevância do ponto de vista das tendências, do futuro da educação. É curioso como os poucos momentos de reflexões e pontuações sobre as tecnologias exponenciais e seus impactos no cotidiano do professor, dos estudantes, dos pesquisadores e das IES atraíram salas cheias e debates acalorados. Uma pequena tentativa de romper com o modelo tradicional das coisas na educação, um alerta à acomodação acadêmica que vigora há mais de cinco décadas, com reflexos nas agendas de congressos, fóruns e seminários brasileiros que tratam da educação no país (um xerox retocado, editado…).

A começar pelo modelo presencial do evento que deixa de fora milhares de pesquisadores, professores e estudantes que poderiam, direta ou indiretamente, contribuir com inquietações, intervenções e produções regionais e internacionais, caso fosse no modelo híbrido tema central da 25ª versão do congresso. Aqui começa uma contradição e a força da acomodação acadêmica…

Nesse contexto, caminhar pelo complexo do cotidiano, que atualmente tem sido descartado pela acomodação acadêmica, parece uma opção difícil tendo em vista fatores como resistências, corporativismo acadêmico, imediatismo, falta de fluência tecnológica para a autonomia acadêmica, pesquisas não participativas (de pouco impacto social e econômico) que exercem influências conservadoras e de pouca inovação e criatividade nos programas e projetos educacionais em andamento.

Enfim, creio que estamos diante de uma contradição que merece uma atenção mais que especial, de modo a reverter esse momento duradouro-estático da ação acadêmica brasileira, criando novos espaços e alternativas para o diálogo contínuo com propostas de mudanças substanciais contra o previsível, propostas de inovação e de conexões com as tecnologias exponenciais que podem servir de apoio à expansão da EaD, em alta escala, além do escopo acadêmico, além do comercial e além de nossas capacidades criativas.

Alvin Tofler:

Os analfabetos do século 21 não são aqueles que não sabem ler ou escrever. Mas aqueles incapazes de aprender, desaprender e aprender de novo.

Enilton Rocha,

Gerente do Hub Mestrado e Doutorado EaD

Gerente de Projetos na WR3 EaD Consultoria

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/eniltonfrocha/

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